Panorama das relações belgo-brasileiras.
O Brasil é um dos
primeiros países a reconhecer o novo Estado belga e com ele firmar um tratado
de comércio, em 1834. Ao longo dos 175 anos de independência da Bélgica, as
relações entre os dois países se caracterizam por exemplar convivência,
alicerçada numa representação diplomática e consular recíproca, contínua e de
bom nível. Alcançam cordialidade em momentos relevantes como o arbítrio do Rei
Leopoldo II em favor do Brasil na questão Christie com a Grã-Bretanha, as
repetidas visitas de Dom Pedro II à Bélgica, os protestos brasileiros contra a
violação da neutralidade belga na Primeira Guerra Mundial, a visita do Rei
Alberto e da Rainha Elisabeth ao Brasil em 1920, ou de presidentes brasileiros
à Bélgica, como a de Juscelino Kubitschek, em 1955. O Brasil está presente nas
grandes exposições belgas, a de Antuérpia, em 1885, até a de Bruxelas, em 1958,
e a Bélgica não falta à exposição do Centenário no Rio de Janeiro, em 1922.
Essas boas relações facilitam intercâmbios diversos, frutíferos e duradouros.
Na verdade, esses
intercâmbios existem desde os primeiros decênios depois do descobrimento do
Brasil, quando um grande empresário da Antuérpia, Erasmo Schetz, em 1540,
investe seu capital na produção de açúcar no Brasil, no famoso Engenho dos
Erasmos, em São Vicente, e logo outros Flamengos seguem seu exemplo na Bahia e
em Pernambuco. Com um grande banquete de açúcar, oferecido durante o casamento
de Alexandre Farnese com Maria de Portugal, em 1565, a Antuérpia se projeta
como o novo mercado europeu do açúcar brasileiro, que muito cedo enriquece e
populariza a doçaria nas gaufres, tartes à sucre e pain à la
grecque, ainda hoje famosas na culinária belga. Essa promissora conexão
flamengo-luso-brasileira infelizmente se interrompe por causa da revolta contra
Felipe II, pelo bloqueio do Escalda e pela invasão holandesa de Pernambuco.
Mesmo assim, os contatos e as informações sobre o Brasil continuam através dos
mapas de Ortélio e Wijtfliet, dos livros do botânico Charles de l'Écluse,
impressos por Plantin-Moretus, das cartas dos jesuítas como Justo Van Surck,
ativos na proteção aos índios, e dos quadros do pintor Jan van Kessel. A forte
colônia flamenga de Lisboa serve de intermediária nas transações comerciais.
Não será por mera coincidência que, paralelamente à abertura dos portos
brasileiros em 1808, o porto de Antuérpia também recupera sua liberdade graças
a Napoleão, e em poucos decênios, se impõe, devido às suas ligações
ferroviárias com a Alemanha e a França, como um dos grandes importadores de
produtos brasileiros. Estes se diversificam cada vez mais, de couros e café à
borracha, plantas tropicais, madeiras, diamantes, minérios, extrato de carne,
carne congelada, cacau e laranjas. Santos se torna, na Bélgica, sinônimo de
café e cartaz de salão de consumo. O Copacabana, belo navio misto em
art-déco da firma L.V.P., é nos anos 30 um dos
primeiros a trazer grandes quantidades de cítricos e a estimular o consumo
popular do suco de laranja. A partir da Expo-Brasil em Bruxelas, em 1973 e,
sobretudo a partir da década de 1990, chega a vez dos manufaturados
brasileiros, de sapatos a aviões, desembarcarem na Bélgica que ocupa, durante
longos períodos, o quinto ou sexto lugar nas exportações brasileiras para a
Europa.
De seu lado, a Bélgica consegue modernização similar nas suas
exportações para o mercado brasileiro, alcançando, proporcionalmente ao seu
tamanho, posições das mais elevadas. Até meados do século XIX predominam
produtos de papelaria, tecidos de linho belga, genebra, vidros e espelhos e,
naturalmente, as famosas armas belgas, de lazarinas baratas a pistolas mais
sofisticadas. Progressivamente, com a primeira industrialização do Brasil, na
segunda metade do século XIX, as casas exportadoras belgas colocam mais
maquinaria agrícola, material ferroviário e construções metálicas. Algumas
destas últimas subsistem, como a famosa estação de Bananal em São Paulo e os
pavilhões do sistema Danly em Belém, a casa-grande da Várzea dos Brennand em
Recife, o pavilhão Albamar do Mercado Central do Rio de Janeiro, o Viaduto
Santa Ifigênia em São Paulo, a escadaria do Palácio da Liberdade em Belo
Horizonte e os imponentes viadutos da ferrovia Paranaguá-Curitiba em meio à Mata
Atlântica. São monumentos bem conservados, como também os espelhos belgas da
Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, devidamente integrados ao patrimônio da
arqueologia industrial brasileira.
Colônias belgas.
Essas fortes posições comerciais são surpreendentes,
visto que a vinda de belgas ao Brasil foi modesta em comparação com a de seus
vizinhos europeus. É que os belgas encontravam maiores facilidades na França,
nos Estados Unidos, na Argentina ou, mais tarde, no Congo. Mesmo assim,
surgiram projetos de colônias belgas nos anos de 1840 na Ilhota em Santa
Catarina e na Pedra Lisa em Campos, em 1888 nas terras do governo paulista em
Porto Feliz e, ainda, depois de 1960, em Botucatu. Outros imigrantes se
deixaram recrutar individualmente para a colônia do Senador Vergueiro em
Ibicaba, para o Mucuri, Blumenau e muitas outras colônias. O total não
ultrapassa em muito os 6.000 imigrantes. Particularmente belga, entretanto, é a
emigração do excedente de universitários e técnicos. Dezenas de engenheiros,
agrônomos, professores e até músicos belgas se estabelecem no Brasil à procura
de experiência profissional, melhor remuneração ou uma vida mais aventureira.
Um deles, Luiz Cruls, diretor do Observatório Nacional, lidera a expedição para
escolher no Planalto Central a melhor localização para a nova capital.
Paralelamente, com a proclamação da República e a separação entre o Estado e a
Igreja, chegam muitos religiosos belgas, beneditinos e premonstratenses, para
repovoar mosteiros e seminários brasileiros. Significativamente, as
congregações femininas belgas, como o Colégio des Oiseaux em São Paulo, têm
mais êxito ao implantar-se, contribuindo para a educação das moças das elites
brasileiras, enquanto que as vicentinas de Gijzegem cuidam de órfãos.
A esta presença de diplomados belgas no Brasil corresponde a ida à
Bélgica, desde meados do século XIX, de centenas de jovens brasileiros para
estudar nas universidades belgas. Contrários a sua reputação de bacharelismo,
preferem a formação de médico ou de engenheiro, como em Gent o futuro grande
construtor Ramos de Azevedo ou, em Liège, um dos pioneiros da energia elétrica,
Edgard de Souza. Enquanto outros engenheiros, como André Rebouças, descobrem a
metalurgia belga, políticos brasileiros se deixam inspirar por modelos belgas
legislativos e políticos. Durante o período do governo militar, o afluxo de
estudantes brasileiros aumenta de novo, se bem que mais orientado para ciências
humanas, como a psicologia.
Investimentos belgas no Brasil.
Precisamente este longo intercâmbio de universitários, junto com os
esforços de algumas casas belgas de exportação-importação no Rio, como a Pecher
e Laureys, favorecem a vinda de investimentos belgas, a partir do ano de 1880.
Primeiro no fornecimento do gás no Rio e na construção e exploração de
ferrovias no Paraná e no
Rio Grande do Sul e, em seguida, na exploração de minérios e da borracha, na
produção de extrato de carne e na indústria têxtil. No começo do século XX, a
Bélgica já ocupa o quinto lugar entre os investidores no Brasil e conta com um
banco próprio, o Italo-Belge, assim como Câmaras de Comércio
belgo-brasileiras, tanto em Bruxelas como em São Paulo. Vale mencionar empresas
menores erguidas por tecelões-imigrantes como os famosos Tecidos Aurora
da família d'Olne em Niterói. A título de curiosidade, vale citar, como
iniciativa premonitória de futuras inversões, uma das primeiras companhias
brasileiras a operar na Europa, a Compagnie brésilienne des Tramways,
criada em 1874, para explorar uma concessão de bondes em Bruxelas, o tram
chocolat. Aparecem as primeiras tentativas de parceria belgo-brasileira,
como a da Dyle et Bacalan, para construção de vagões com madeiras brasileiras.
Uma segunda leva de investimentos belgas se inicia no período entre as
duas guerras mundiais, em 1922, com a criação da siderúrgica Belgo-Mineira, com
forte participação luxemburguesa. Seguem filiais de grandes empresas belgas,
que percebem as boas perspectivas da nova etapa na industrialização brasileira,
como os Pieux Franki, a Electrobel, ACEC, Solvay e Bekaert.
Nem todas persistem e, nos anos difíceis de 1960 a 1990, parece ocorrer um
retrocesso com o desaparecimento do Italo-Belge. Mas, nos últimos quinze
anos, os investimentos belgas encontram um terceiro impulso com a chegada da Tractebel,
Katoennatie, Lhoist e outras. Um novo passo na parceria se
manifesta com a criação da Inbev e a colaboração da Embraer com a
indústria aeronáutica belga. Grandes empresas brasileiras descobrem as
vantagens e os serviços oferecidos pela Bélgica para introduzir-se na Europa,
como a Companhia Vale do Rio Doce em Bruxelas.
Para desenvolver tais parcerias em outros setores e na falta de acordos
culturais e de programas oficiais de cooperação, organismos internacionais e o
setor privado deverão ser mais acionados. Estes últimos podem fiar-se num vasto
campo de interação social e cultural, que nos últimos anos aproximou muitos
belgas e brasileiros em ONGs assistenciais, programas de intercâmbio escolar,
festivais de música de MPB ou galerias e exposições de arte, sem esquecer o
descobrimento mútuo da gastronomia. Um chef de São Paulo, Atala, recebe
sua formação culinária nas escolas de hotelaria belgas, enquanto aqui mesmo
outro belga, Geenen de Saint-Maur, desvenda todo o rico potencial da
alimentação popular brasileira. Aliás, este fascínio cultural mútuo se renova
sem interrupção desde o começo do século XIX, em dezenas de livros belgas sobre
o Brasil e nas obras de poetas brasileiros e belgas: de Gonçalves Dias a Manuel
Bandeira, de Émile Verhaeren a Géo Libbrecht. O Brasil está presente na obra do
primeiro diplomata-desenhista Benjamin Mary ou de Henri Langerock e é um belga,
Jacques Ardies, que promove a pintura naïve
brasileira. Já em 1910, o Embaixador Oliveira Lima organiza, no Théâtre de
la Monnaie – De Munt, um concerto de música brasileira e, no fim desse
século, a MPB cativa o público belga nos festivais Viva Brasil, na praça
central de Bruxelas. Que haja mais música, como a parceria de Toots Thielemans com
Elis Regina, ou de Think of One!
Eddy Stols
Belo Horizonte, 20 de setembro de 2005.
Eddy Stols (°1938,
Roeselare), Doutor em História e Professor Emérito da Universidade de Leuven
(KULeuven).
Professor visitante na Universidade Federal de Minas
Gerais em 2005.
Publicou:
Brazilië, Vijf eeuwen geschiedenis in dribbelpas, Leuven, Acco, segunda edição
2002;
em co-redação Flandre et Amérique Latine,
Antuérpia, Fonds Mercator, 1993;
Brasil,
Cultures and Economies of Four Centuries, Leuven, Acco, 2001.